A entrevista com o diretor da Biblioteca Pública de Nova York mostra ao menos duas coisas. Em primeiro lugar, a vantagem de se ter uma elite esclarecida que, tendo muito dinheiro para torrar, prefere construir bibliotecas. Em segundo lugar, que biblioteca não é só lugar para "ler livros".
Esta semana fiquei sabendo que a fortuna de Eike Batista é maior que o PIB do Paraguai. Bom para ele. Famílias ricas em Nova York, não só a de Andrew Carnegie, costumam fazer essas doações para museus, escolas e bibliotecas. Um dos Rockfeller doou dinheiro para fazer os Cloisters, os Frick tem outro museu lindo, além dos Guggenheim e por aí vai. Não vou entrar no mérito de cada um, mas sem dúvida falta à elite brasileira um pouco desse espírito: "mais bibliotecas públicas, menos Daslu".
Sobre o segundo ponto eu tenho mais experiência. Quem acha que biblioteca é apenas lugar para ler um livro ou fazer trabalho de escola está por fora. A Biblioteca Pública de Nova York é um bom exemplo. A sede, aquele prédio lindo que aparece logo no início do filme Caça-Fantasmas, é o que há de menos importante. O que interessa mesmo são os prédios das bibliotecas nos bairros. A uns oito quarteirões de casa tem uma, no Queens. É pequena, mas está sempre cheia. Oferece internet, atividades culturais e, claro, livros. Outra que conheço é uma que fica a duas quadras da Universidade Columbia. Caso você procure um livro que a Biblioteca Pública não tenha, eles lhe dão uma autorização para ir buscá-lo em Columbia, que tem uma das bibliotecas mais completas do mundo.
Até hoje me lembro da primeira biblioteca que frequentei. Estudei em um colégio católico na zona norte do Rio. O lugar era mesmo um oásis no deserto. Havia uma pequena biblioteca que podíamos consultar. Simplesmente adorava passar os intervalos ali lendo uma coleção de biografias. Lembro de ter lido coisas sobre Hitler e Stálin (tutti bona gente). E eu também gostava das enciclopédias.
Agora imagine se espalhássemos bibliotecas nas periferias das cidades brasileiras. Prédios acolhedores com internet, palestras, cafés, espaço para atividades culturais, cinemas. No vídeo, fiquei espantado ao saber que em alguns lugares nos EUA elas funcionam quase como creche. Os CEUs em São Paulo seguem mais ou menos essa ideia de biblioteca/escola serem espaços não só de aprendizagem, mas de interação social, lazer e por aí vai. Acho que o principal é atrair as pessoas, nem que seja para que elas venham ler e-mails nos computadores ou preparar currículos profissionais. Uma hora a mágica acontece, a curiosidade aflora e daí a pessoa entra no mundo dos livros. Tenho muita "fé" na curiosidade das pessoas, na vontade de saber. Basta colocar a isca.
Talvez seja anacrônico falar em bibliotecas em plena "era Kindle", quando centenas de livros passaram a caber na palma da mão. Porém, se as bibliotecas forem mais que o coletivo de livros, acho que elas ainda estarão aí por muito tempo.



