Politika etc.

Por Raphael Neves

Um blog de política e o que mais der na telha

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Há 45 anos

Escrito por Raphael Neves terça-feira, 31 de março de 2009 21:27
Esta semana o golpe militar que instituiu uma ditadura no Brasil completou 45 anos. O Uol colocou uma matéria interessante na internet (veja aqui) informando que o Clube Militar (CM) iria comemorar o aniversário da "Revolução Democrática de 31 de março de 1964". O presidente do Clube, general Gilberto Figueiredo, defendeu a ideia. Segundo ele, a sociedade questionava na época o rumo que o governo queria tomar. Logo, a explicação "do nosso lado" (digo, do lado dele) é a de que um risco iminente justificou a ação militar.

Uma carta disponível no sítio do CM (clique aqui para baixá-la), de autoria do general Clóvis Bandeira, "explica" aos novos oficiais o que "realmente" aconteceu naquele episódio. Novamente, a justificativa é que havia um momento de risco para sobrevivência do regime democrático brasileiro.

Portanto:
"Não havia mais dúvida possível: um golpe sindicalista e comunizante estava em marcha, para ser desencadeado em breve. O Presidente da República, por convicção ou por oportunismo, embarcara nessa aventura. Os fundamentos das Forças Armadas estavam seriamente abalados pela ação ou pela inação dos que deveriam defendê-los."

Não precisam se acanhar, generais, é ditadura mesmo - um conceito clássico da política. Como militares que não tem medo de canhão podem ter medo de palavras? Ou pode ser apenas coisa do léxico... (vai ver a edição do dicionário do Clube que comemorou a "Revolução Democrática" é igual a da casa dos que fundaram os "Democratas").

A tradição republicana e a teoria política trazem um pouco de luz para nos ajudar a entender a história. O conceito de ditadura aparece, por exemplo, nos Discursos 34 e 35 de Maquiavel. Ao refletir sobre o instituto romano da ditadura, Maquiavel afirma que não foi o nome ou posição do ditador que colocaram Roma em servidão, mas foi a autoridade dos cidadãos para se perpetuarem no Império. Ora, como assim?

A ditadura é um meio para alcançar um fim determinado. Nesse sentido, para ele, a ditadura é uma questão vital e não se confunde com uma dominação absoluta. Um ditador é nomeado por um período limitado de tempo, nunca perpetuamente, apenas para remover a causa de um perigo urgente. O ditador nunca pode diminuir o poder do Estado, destruir velhas instituições ou criar outras novas.

O conceito está também no Contrato Social de Rousseau (Livro IV, Capítulo 6) onde aparece uma distinção importante. Em primeiro lugar, na ditadura propriamente dita, nomeia-se alguém que deve por um momento "silenciar as leis" e suspender a autoridade soberana. Mas, nesse caso, a vontade geral continua a existir: quem cala a autoridade legislativa não pode fazê-la falar. Em segundo lugar, aparece algo como o "estado de sítio", em que há apenas uma mudança no modo de se administrar as leis: há uma concentração de competências dentro do executivo, sem suspensão das leis vigentes. Pois bem, em ambos os casos a justificativa é proteger a existência do Estado e evitar sua decadência.

Seja em Maquiavel, seja em Rousseau, temos um caso de ditadura comissária: uma ditadura que suspende a norma a fim de tornar essa mesma norma possível, realizável. É assim ao menos como a chama Carl Schmitt (de quem já tratei aqui), autor da talvez mais completa obra sobre o tema - Die Diktatur (disponível em espanhol). Há ainda, segundo Schmitt, uma forma não prevista na tradição republicana, isto é, a ditadura soberana. Nesse caso, a ação do ditador não repousa sobre uma norma já constituída, ao contrário, serve a um poder constituinte. Basta pensar, por exemplo, quando, durante a Revolução Francesa, uma assembléia é incumbida pelo poder constituinte (o povo) de uma missão, ou seja, redigir uma nova constituição: a assembléia funciona como uma ditadura soberana.

Tenho um pouco a impressão de que os militares no Brasil falam como se a tomada de poder em 64 fosse um caso de ditadura comissária. Era preciso, para salvar o Estado, suspender o direito. Os militares teriam então o dever (constitucional, segundo alguns) de proteger as instituições e eliminar um risco preciso: a instabilidade do governo João Goulart. Mesmo que se compre o argumento, é necessário admitir que houve, e muita, extrapolação.

Não é possível justificar uma ação como essa, supostamente "temporária", que dure 20 anos. No meio do caminho os militares tentaram transformar essa ditadura em soberana. Destruíram o ordenamento que alegadamente deveriam proteger e constituíram um monstro jurídico. O objetivo da ação ampliou-se para a eliminação de um inimigo concreto (os opositores do regime). O AI-5, as perseguições, as torturas, tudo seria justificável em nome... em nome de quê? Em nome do povo? Para salvar o Estado do perigo vermelho? Não pode ser porque o povo foi inibido de manifestar sua própria vontade.

O problema é que, dando esse segundo passo, os militares usurparam a soberania popular. A ação militar visa sempre cumprir um objetivo que, por bem, é definido fora da caserna. O que fizeram foi sair do âmbito militar e interferir no âmbito político, criando eles mesmos um inimigo e justificando toda e qualquer ação para se perpetuar no poder. Para ficar com Rousseau, calaram o legislador e se desembestaram a falar.

foto Grevistas x Polícia, de Estevam Cesar, 1980

8 Comentários sobre "Há 45 anos"

  1. Grande Rapha,

    Não é porque meu colega de New School, de um departamento diferente, e tomamos vários Hazelnuts e Coronas juntos que vou rasgar a seda pra você aqui. É que na verdade acho que você faz no seu blog algo bem legal: transforma temas chatos da ciência política (se fosse "ciência" mesmo, não teria ciência no nome! *rs*) em assuntos interessantes e instigantes sem cair no pedantismo intelectual (essa coisa perniciosa que ronda a academia). Acho que é essa a função do intelectual, ous seja, manter um posicionamento crítico e se fazer inteligível a todo(a)s. Mesmo achando os temas que você trata bastante pesados para um blog, sua escrita consegue dar leveza aos mesmos sem cair no reducionismo. Já estou vendo você com uma coluna na Folha daqui a alguns anos! *rs* Mas, para ser chato, vou continuar pegando no seu pé por conta da sua nostalgia dos anos 1960! *rs*

    Belo post!

    Abraços,

    Kibe.

     

  2. Raphael Neves disse:

    Valeu, Kibe!

    Se até você achou legal meus temas chatos, é porque consegui alguma coisa.

    O mais engraçado é a gente se comunicar através do blog sendo que você está a uns 20 metros de mim aqui na biblioteca rs...

    Abraço,
    Rapha

     

  3. Fabio disse:

    Muito bom o post.
    E achei interessante os créditos ao fotógrafo. Essa é a única parte da propriedade intelectual que acho legal (direitos morais de autor).
    Um abraço, F.

     

  4. Spencer disse:

    Mr Neves,

    Simples, objetivo, coerente e excepcionalmente bem analisado. Serei honesto, não sou um boçal, considero-me perspicaz, curioso e analítico, principalmente no que se refere à História e à Política; porém nunca havia analisado ou visto uma análise sobre a "Redentora" tão legítima. Prometo-lhe que quando utilizar seus argumentos darei os devidos créditos.

    Spencer

    PS: espero que NÃO venhas a ser um articulista da Folha

     

  5. Raphael Neves disse:

    Caro Spencer,

    Obrigado! Fico lisonjeado com o comentário!

    Havia esquecido dessa alcunha - "Redentora". É quase tão boa quanto "ditabranda". Pertencem todas ao mesmo dicionário... Fique tranquilo que vou continuar mesmo é nos blogs da vida.

    Forte abraço,
    Rapha

     

  6. Raphael Neves disse:

    Fabião, valeu, cara! É, também gosto do direito moral, não morre nunca.

    Abraço,
    Rapha

     

  7. Rafael, muito bom seu artigo sobre a "redentora".Pena que o "velho" Guillermo Hohagen,meu pai,não esteja mais entre nós para se deliciar. Ele que foi membro do partido aprista peruano até a morte,companheiro de Haya de la Torre,a quem homenageou dando seu nome a meu irmão gêmeo,nos contava muito sobre os facínoras da América e citava entre outros Odria,Batista,Trujillo,Perez Jimenez,Paz Estenzoro,Stroesner e Somoza. Sâo os que me lembro agora.Tenho um irmão que é maestro que herdou o nome de Sandino e para mim reservou como " midle name " José Martí".Posso dizer que aos 70 anos tenho " assistido" excelentes aulas através de seus textos e do já amigo Marcio (Kibe) Grande abraço do Lafa

     

  8. Raphael Neves disse:

    Grande Lafa,

    Obrigado pelo comentário. Ainda bem que, para compensar os nomes de ditadores, nossa América Latina também tem um bom número de nomes de gente boa, não é?

    Abraço,
    Rapha

     

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    Estudante de πολιτικὴ (“ciência”? política) tentando sobreviver em Nova York com a bolsa da Capes/Fulbright. Flamengo até morrer. PhD als Beruf.