Chegou aqui para mim uma troca de e-mails entre professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) sobre a ação policial na USP. Ocorreu que um grupo de professores indignou-se com a entrevista que a professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, do departamento de Ciência Política, deu à Folha de S. Paulo. Na entrevista, ela diz que existem grupos na universidade que apostam no confronto.

Alguns professores que estavam protestando no campus no dia da ação policial pediram alguns esclarecimentos à professora:
"Carta aberta à Profa. María Herminia Tavares de Almeida"
Profa. Dra. Maria Herminia Tavares de Almeida
Prezada colega.
Os que lhe escrevemos somos professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que exercemos, em tempo integral, atividades da mesma natureza que você desenvolve, ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica, tendo ingressado, como você, por concurso público. A qualquer momento pode encontrar-nos nas salas e corredores da Faculdade (como já de fato acontece com vários dos que assinam a presente), bem como nos seus órgãos colegiados e comissões. Você tem, ainda, acesso ao nosso perfil público, tanto à produção científica quanto à nossa atuação em diversas atividades e a nossas opções como cidadãos, que a ninguém ocultamos. Não lhe somos, em absoluto, estranhos.
Na terça-feira 9 de junho, estando no prédio da História e Geografia, fomos atacados, junto com uma centena de colegas e várias centenas de alunos, quando, como expressa a declaração oficial da Direção desta Faculdade, “mesmo com a tentativa de mediação da direção da FFLCH junto ao comandante do efetivo da PM, bombas de efeito moral foram atiradas sobre o estacionamento do prédio de Geografia e História”. Sofremos a dor e o mal-estar físico que é conseqüência dessas bombas, bem como a humilhação de sermos tratados como bandidos. Para muitos de nós, foi o pior dia da nossa vida na Universidade.
Por isso, muito nos ofendeu ver, em entrevista publicada hoje, 11 de junho, na Folha de São Paulo, que você defenda e até elogie a ação policial sem dizer sequer uma palavra acerca dessa ignomínia sofrida por nós, seus colegas, com os quais convive e conviverá na mesma Faculdade. Esse ataque que sofremos foi decisão consciente da tropa cuja intervenção você referenda. Acaso essas centenas de alunos e professores fazem parte do que você denomina “grupos que apostam no confronto”? Seria essa a denominação que mereceriam os debates que estamos realizando há quase dois meses sobre a reforma da carreira docente, por exemplo?
Independentemente da avaliação que cada um de nós tenha sobre a situação da Universidade, em função de uma convivência salutar, as bombas de gás contra seus colegas não podem ser simplesmente ignoradas. Assim como não podem ser ignoradas a recusa de Suely Vilela em negociar e sua opção por delegar a resolução dos conflitos a forças externas incontroláveis. Na suposição de que se trate de uma involuntária omissão sua no momento de ser entrevistada, ou de um corte realizado pelo jornal em seu depoimento, queremos pedir-lhe que publicamente se pronuncie sobre se repudia a violência policial que nós, seus colegas, sofremos na terça-feira no nosso lugar de trabalho (o seu), ou, caso contrário, que explicite qual é exatamente a periculosidade que encontra no nosso perfil público, que nos faria merecedores desse tratamento. Devido à gravidade do fato, e em respeito ao nosso sofrimento, bem como de funcionários e alunos, pedimos que se trate de um pronunciamento preciso, pontual, e sem relativizações.
Profa. María Teresa Celada - DLM/FFLCH Prof. Adrián Fanjul -DLM/FFLCH Profa. Marisa Grigoletto - DLM/FFLCH Profa. Rosângela Sarteschi - DLCV/FFLCH Profa. Elisabetta Santoro - DLM/FFLCH Profa. Léa Francesconi - DG/FFLCH Prof. Ruy Braga - DS/FFLCH
Aí, MHTA ativou seus lasers e respondeu, citando inclusive a entrevista de Dalmo Dallari:
Prezados colegas do Fórum Docentes da FFLCHComo os colegas, vejo com tristeza e indignação a violência se instalar em nossa universidade. Penso que ela é incompatível com os valores que norteiam a vida universitária: pluralismo, tolerância e crença na força dos argumentos baseados no conhecimento e na razão. Como os colegas, lamento a invasão do Prédio da História e Geografia pela PM, na última 3ª. feira, depois que um pequeno grupo manifestantes cercou e agrediu com pedras e tijolos alguns policiais.
O que aconteceu na 3ª. feira passada foi grave e desmedido, mas não foi o início da violência na Universidade e em nossa Faculdade. Ela começou na Universidade quando o grupo de funcionários liderados pelo SINTUSP invadiu a reitoria. Ela começou, em nossa Faculdade, quando as entradas das salas de aula foram bloqueadas para impedir o acesso de professores e alunos que desejavam ter aula, e continua a cada dia, como dão testemunho os alunos e a colega responsável pelo curso de Tradução do Alemão I.
Na verdade, a violência instalou-se definitivamente na USP na greve de 2006, quando a reitoria foi ocupada por um longo período, tendo resultado na depredação de instalações, quebra e desaparecimento de equipamentos e documentos. Se tivéssemos, então, nos oposto de maneira firme à ocupação violenta, talvez ela não se repetisse este ano e a campanha salarial dos funcionários transcorresse de outra forma.
Mas não foi e não é só o patrimônio físico da USP que é destruído a cada greve violenta. É, também, seu patrimônio moral.
Na nossa Faculdade, tem ocorrido greves a cada dois anos. Elas são greves muito especiais, pois só paralisam as atividades da graduação. Não conheço um único colega que tenha deixado de escrever artigos, participar em congressos e seminários, orientar seus pós-graduandos. Não conheço um único colega que tenha solicitado à Fapesp ou ao CNPq a suspensão de seus projetos e bolsas por ter decidido paralisar suas atividades em razão de reivindicações próprias ou em apoio a demandas de funcionários e alunos. As greves da FFLCH atingem os alunos de graduação e tem efeitos muito perversos sobre eles. Com isso, de alguma forma lhes dizemos que ensinar na graduação é a menos importante de nossas atividades. As consequências tem sido devastadoras: compromisso frouxo com os cursos, desencanto, baixo respeito com relação aos espaços, instalações e equipamentos. Há festas com som nas alturas, nos horários de aula; consomem-se álcool e drogas ilícitas, sob nossas vistas grossas. Assim abrimos nossas portas à violência e à intolerância. A Faculdade de Filosofia, que foi o coração da Universidade, em sua fundação, que produziu ideias e valores que alimentaram a oposição democrática à ditadura militar, já não é capaz desempenhar um papel positivo e inovador na USP.
Eu gostaria que os problemas de nossa universidade pudessem ser resolvidos por meio da negociação e do diálogo, sem recurso à Justiça e à força policial. Nas circunstâncias criadas pela ocupação intempestiva da Reitoria pelo SINTUSP, acredito que a reitora fez a coisa certa ao recorrer à Justiça para obter reintegração de posse. Ainda assim, a violência que os colegas sofreram seria evitável se os ocupantes houvessem acatado a decisão judicial, como se espera quando se vive no estado de direito.
Eu gostaria que nossa Faculdade fosse capaz de produzir os argumentos e as lideranças para a solução negociada dos nossos problemas, em lugar de alinhar-se à minoria que aposta na ocupação violenta e no confronto.
Como enfatizou o professor Dalmo Dallari, em sua entrevista de 12 de junho à Folha de S. Paulo, as pessoas que invadiram a reitoria não gostam da USP.
Quem defende a universidade não a destrói.
Saudações universitárias,
Maria Hermínia Tavares de Almeida
O problema todo é saber até que ponto o conflito entre sindicato, alunos, professores e reitoria poderia ter sido resolvido na base da negociação. Concordo plenamente quando a professora Maria Hermínia diz que é melhor uma solução negociada. O argumento dos que acreditam que a reitoria agiu corretamente (como afirmou Dallari) está baseado na suposição de que há uma radicalização que inviabiliza a negociação e que, portanto, a ação policial foi legítima para assegurar o patrimônio da universidade. Isso é verdade?
Quem conhece a USP sabe que o Sintusp faz bastante barulho, mas tem pouco poder. Como a própria professora diz, mesmo na FFLCH, ninguém para as aulas da pós-graduação, a pesquisa e outras atividades corriqueiras. Em outras unidades, como a Poli, greve é coisa de "vermelhinho", de aluno das Sociais, da Filosofia. E, como afirmaram em ambas as entrevistas publicadas pela Folha, os tais piquetes são coisa de uma minoria. Então como é que se pode falar em radicalismo?
Uma ação radical necessita de uma adesão em massa e de uma pauta de reivindicações que altere o status quo. Alguém viu isso? Chamar a polícia é atestar a ineficácia dos canais políticos para resolver a questão. Mesmo que do ponto de vista legal a ação policial tenha ocorrido dentro do previsto em um Estado de Direito, não podemos nos esquecer que a política, isto é, a democracia precisa também cumprir seu papel.
O governador José Serra afirmou que a ordem judicial justificava a presença da polícia. Ou seja, a ação policial é legítima e amparada legalmente. Não dá para discordar. Mas é curioso que isso venha de um político. Basta então que um dos lados use o instrumento legal da reintegração de posse e a polícia aplique a lei. Para que política, para que governador, para que reitora? basta uma decisão administrativa do departamento jurídico da USP, uma decisão judicial e a ação da polícia. Nem ele, nem a reitora servem para nada.
A ação policial também precisa ser proporcional. Se um grupo de manifestantes ameaça a polícia, ela precisa dispersá-los. Mas o tal "cerco", ao que parece, ocorreu na entrada da USP. Então por que lançavam bombas de gás lacrimogênio próximo à FFLCH? Em Nova York, vi estudantes gritar "From New York to Greece, fuck the Police", sem nenhuma reação por parte dos policiais.
Como ensina Weber, quando um policial recebe uma ordem, é seu dever cumpri-la, sob responsabilidade de seu superior. Quando uma liderança política age, ela age em sua própria responsabilidade. Colocar o aparato da violência estatal em um campus, sob a escusa de um radicalismo de minoria, é agir de forma irresponsável. Que venham as consequências.
Em tempo: para maiores informações sobre o que está acontecendo na USP, veja o fórum de discussão dos pós-graduandos http://www.usp.br/apgforum/forums/list.page

