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In vino veritas

Escrito por Raphael Neves quinta-feira, 30 de julho de 2009 12:00
Hoje é o dia que o presidente americano Barack Obama reservou para tomar uma cervejinha com o professor Henry Gates Jr. e o sargento James Crowley. Meu amigo Kibe tentou acertar qual cerveja seria a preferida para o encontro. E não é que isso acabou virando uma questão séria? Não é à toa que os pós-modernos fazem a festa nos Estados Unidos.

Os jornais criaram uma espécie de aposta para saber qual seria a marca escolhida. Ao que parece, Obama ficará com uma Bud Lite, Gates com uma Red Stripe e Crowley com uma Blue Moon. A julgar pelas escolhas, podemos já ter uma ideia do teor da conversa. Obama sempre tentando ser conciliador, faz apelo ao sentimento patriótico tomando uma Budweiser, uma cerveja comum, consumida por qualquer Joe Sixpack (equivalente a Zé Mané, o homem médio). Gates afirma sua identidade tomando uma cerveja jamaicana. Já o policial... hum, escolheu logo uma cerveja produzida pela Coors, uma empresa com longo histórico de discriminação.

O fato é que a atitude de Obama parece reforçar aquele excelente discurso feito ainda durante a campanha presidencial, em março do ano passado, na Filadélfia. Até então, Obama havia evitado polemizar a questão racial a fim de tornar-se o candidato de todos, não apenas dos negros americanos.



Ao contrário do que disse aí no Brasil a advogada do partido Democratas que tenta suspender as ações afirmativas na Universidade de Brasília, Obama levou em conta sim o discurso racial. Até porque mesmo calado, Obama encarna a questão pelo simples fato de sua pele ser negra. É óbvio que ele não precisava dizer: "Olá, sou negro e me chamo Obama". Ao falar abertamente sobre isso na Filadélfia, ele deixou claro que o fato de ser negro marcou seu modo de entender o mundo e ver as coisas. Também reconheceu as conquistas que os negros obtiveram ao longo dos anos de luta pelos direitos civis.

Não podemos justificar o indesculpável, ele disse, como os estereótipos. Por que então não aproveitar o recente caso envolvendo o professor Gates para uma iniciativa concreta e não apenas simbólica? O Executivo poderia tentar forçar a aprovação da lei para o fim da discriminação racial nas ações policiais, o End Racial Profiling Act (ERPA), como recomenda o relatório da ACLU (principal ONG americana de direitos civis) sobre racial profiling (a prática discriminatória de se aplicar a lei com base em algum critério de raça, etnicidade, religião ou nacionalidade).

Por outro lado, conforme ele dizia no discurso da Filadélfia, é preciso unir o país para resolver problemas que afetam a todos. Sua ideia, portanto, é a de que o momento deve ser de união para se enfrentar um risco comum.

Nesse sentido, ele é extremamente hábil em articular os dualismos da política. Ao invés de polemizarmos a dicotomia brancos x negros, por que não partirmos para algo mais abstrato, capaz de colocar todos no mesmo barco: os sem-assistência médica x os poucos que lucram muito com o atual sistema de saúde ou os desempregados x os especuladores? É claro que essa é uma aposta arriscada. Primeiramente, porque representa um certo ideal de Pollyanna, que se julga capaz de conciliar o irreconciliável. Em segundo lugar, porque cria muita expectativa. Ainda há muita gente que vê em Obama o salvador da pátria de todas as questões econômicas, raciais, ambientais e por aí vai. Diante do caos econômico e do perverso sistema de saúde americano, apaziguar as tensões raciais, nem que seja para uma cervejinha, parece tarefa não muito complicada.

5 Comentários sobre "In vino veritas"

  1. Quem diria... o policial demonstra ser o que tem mais bom gosto na escolha da marca de cerveja (a propósito, me deu uma vontade danada de tomar Blue Moon - com uma fatia de laranja, of course. Pena que os preço dela aqui no Brasil desanime qualquer um..).

    Já a escolha do professor achei racially biased...francamente, Red Stripe é 3o. time.

    E o Obama, coitado, dando uma de Jânio Quadros (que comia sanduíche de mortadela sentado na sarjeta para parecer pobre) e metendo a porcaria da Bud Light goela abaixo para fazer média com o "homem comum". Isso é o que eu chamo de populismo etílico...

     

  2. Raphael Neves disse:

    Eu concordo com sua opinião sobre as cervejas. Mas depois do que li sobre a Coors, acho que me recuso a tomar Blue Moon.

    Como falei no Twitter, o Obama podia também ter escolhido uma cerveja "proletária" (mas aí ia desvirtuar pra classe, ao invés de raça), a Blue Pabst Ribbon, que é baratinha. Mas também é horrível, de fazer páreo duro com a Malt 90.

    Abraços,
    Rapha

     

  3. Por que ninguém falou da Colt 45? Por que é maltliquor ou muito guetto? Isso parece comercial das Tostines: é mais fresquinho por que vende ou vende mais por que é mais fesquinho? ...hahahahaha...

    Ok, como sou "racialmente" orientado também tomaria um Red Stripe como fez o Gates.

    Abraços,

    Márcio/Kibe.

     

  4. Raphael Neves disse:

    Kibão, seria ótimo se eles tivessem tomado uma Colt 45... Aliás, essa gente deveria começar a colocar Colt 45 nos automóveis pra economizar combustível.

     

  5. Raphael Neves disse:

    Pô, lá no Hemenauta, li o seguinte:

    “The four drank out of beer mugs. Mr. Obama had a Bud Lite, Sergeant Crowley had Blue Moon, Professor Gates drank Sam Adams Light and Mr. Biden, who does not drink, had a Buckler nonalcoholic beer. (Mr. Biden put a lime slice in his beer. Sergeant Crowley, for his part, kept with Blue Moon tradition and had a slice of orange in his drink.)

    O Gates decepcionou... tá certo que a Sam Adams é boa pacas. Ele preferiu prestigiar Massachusetts e tomar uma cerveja de Boston.

     

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    Estudante de πολιτική ("ciência"? política) tentando sobreviver em Nova York com a bolsa da Capes/Fulbright. Flamengo até morrer. PhD als Beruf.
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