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Quem são os (n)otários?

Escrito por Raphael Neves quinta-feira, 23 de julho de 2009 11:43

Meses atrás tive de reconhecer firma aqui em Nova York . Tinha pouquíssimo tempo e entrei em pânico. "Putz"... pensei, vai ser dureza achar um cartório por aqui, ter de lidar com a burocracia gringa etc. Como não me lembrava de ter visto nenhum cartório, não tive dúvida, procurei no google e, para aumentar meu desespero, centenas de pontos apareceram no mapa de Manhattan. "Mas como assim? como pode haver tanto serviço notarial nesse lugar se eu nunca vi nenhum?!"

Por via das dúvidas, fui em um que ficava em uma loja do Fedex. Chegando lá o funcionário me disse que esse tipo de serviço só começava ali depois do almoço. Perguntei, já suando de nervoso, pois tinha de embarcar para o Brasil naquela noite e precisava da maldita autenticação, se ele sabia de algum outro lugar. Ele falou: "vai ali no banco da esquina". "Banco?", pensei, esse cara deve estar maluco. Pois entrei no tal banco, disse o que queria e uma moça me levou até um outro funcionário. Ele pediu minha identidade, viu o documento, minha assinatura, carimbou, assinou e pronto! Perguntei quanto era, ele disse: "Não se preocupe. Tenha um bom dia".

Veja como a coisa funciona por aqui. Qualquer um pode ser "cartorário". Não precisa ter superpoderes, não precisa voar, não precisa ser filho do rei. Basta fazer uma prova sobre a legislação, pagar uma taxa de US$ 60 e preencher outros requisitos menos importantes, e você pode reconhecer firma de outras pessoas. Como empresas, escritórios fazem? Bem, eles geralmente tem alguns funcionários que obtiveram a tal licença, então ninguém precisa ficar mandando documento para o cartório. Chega ali no fulano que trabalha ao seu lado, pede para ele dar uma carimbada e tudo certo!

Aliás, as empresas vivem recebendo "spam" através de e-mail ou fax de gente que oferece curso preparatório para o tal exame. Coisa simples, de um dia, como mostra essa propaganda aí (clique na imagem para ampliar).

E o registro de imóveis? No Brasil, uma pessoa que mal tem dinheiro para comprar um imóvel e, portanto, muito menos para desembolsar o (caro!) registro, fica só com a posse. Amanhã, quando ela tentar vender a propriedade, e só possuir o contrato de compra e venda assinado pelo antigo proprietário que já morreu ou mudou-se para o interior, descobrirá a enrascada e o trabalhão que dará sair dela. Se ainda não fizeram, um dia farão um belo estudo mostrando como essa maldita burocracia brasileira ferra os pobres que lutam para comprar "um terreninho" e, apesar de pagar por ele, na verdade não se tornam proprietários por causa do registro.

Aqui é necessário fazer um registro sim (que eles chamam de deed), mas na prefeitura. A coisa toda pode ser feita pela internet, geralmente através do corretor. Em São Paulo, quem comprar um imóvel de até R$ 951 (veja, não estou falando de um apartamento nos Jardins), paga R$ 103,02, segundo a tabela de emolumentos dos cartórios. O que dá quase 11% do valor da propriedade. Em Nova York (que tem um dos m² mais caros do universo), segundo a página da prefeitura, o custo é de US$ 32 mais US$ 5 por folha!

Será que no futuro próximo, quando tudo será feito digitalmente, os cartórios deixarão de existir? Hoje, nossa regulamentação se dá de forma capenga, através da medida provisória 2.200-2/01, que criou a Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil). Se depender do projeto de lei 1.589/99, haverão dois tipos de certificado digital: um privado e outro público (este capaz de gerar efeitos contra terceiros). Adivinha quem terá monopólio sobre a certidão digital pública? Acertou quem pensou nos cartórios.

Então, não seria melhor se qualquer um pudesse ser notário ao invés de todos sermos otários?

9 Comentários sobre "Quem são os (n)otários?"

  1. Rafael,
    MUITO legais as informações. Tinha a maior curiosidade para saber sobre como funcionam os cartórios e notários em outros países.
    Já tinha perguntado pra pessoas que viverm nos EUA e na Europa e ninguém soube me responder. E sinceramente nunca tive a iniciativa de pesquisas isso na web (sei lá, talvez por um bloqueio subconsciente: "...isso vai dar muito trabalho, é muita burocracia...")
    Vou republicar no me blog, dando os devidos créditos, OK?
    Abs!

     

  2. Raphael Neves disse:

    Que bom que gostou, João.

    Manda bala, publica sim.

    Abração,
    Rapha

     

  3. Spencer disse:

    Mr Raphael, bom dia,


    Eu ia comentar sobre esse seu post, porém tive tantas dificuldades para saber como é que se faz comentários no novo formato de seu blog que preferi fazer essa reclamação mesmo. Talvez seja incompetencia de minha parte, confesso, porém entrei em tanto lugar para chegar aos comentários que me senti quase tão impotente quanto o cidadão que precisa de enfrentar nossa burocracia. Espero que para reclamar eu não tenha enfrentar fila, reconhecer firma nem pagar taxa,

    Abraços,

    Spencer

     

  4. Spencer disse:

    Pensando melhor, é incompetencia minha mesmo...

     

  5. Raphael Neves disse:

    Caro Spencer,

    Desculpe pela "burocracia". Eu encontrei esse modelo de página na internet, fiz algumas alterações, traduzi para o português o que pude, mas tem certas coisas que eu não sei como alterar. Acho que você encontrou o "link" para os comentários: fica abaixo do título do "post". Obrigado por ler o blog.

    Forte abraço,
    Rapha

     

  6. Raphael, meu post citando o seu rendeu a maior polêmica com a corporação notarial:

    http://joaofresende.posterous.com/como-funcionam-os-cartorios-nos-eua

    http://cartorios.org/2008/12/05/tio-sam-e-a-fe-publica/

    (abaixo do post, nos comentários)

     

  7. Rapha, uma única observação a respeito do comentário do JF: não foi a "corporação notarial" que se manifestou. Não tenho nada a ver com os notários. Sou registrador, que é uma coisa bem diferente. Dou as respostas lá no blogue.
    Aproveito para agradecer a ambos a disposição sincera e honesta de discutir o tema.

     

  8. phael, no post sobre o Clint Eastwood lá no guaciara eu deixei uma pergunta para vpcê

     

  9. Raphael Neves disse:

    Valeu, Tiago! Ainda não respondi sua pergunta, mas assim que assistir o filme (em breve) escrevo lá! O Guaciara é bom demais.

    Abraço,
    Rapha

     

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    Raphael Neves
    Estudante de πολιτική ("ciência"? política) tentando sobreviver em Nova York com a bolsa da Capes/Fulbright. Flamengo até morrer. PhD als Beruf.
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