Hoje o ex-prefeito do Rio, Cesar Maia, publicou um artigo interessante na Folha de S. Paulo cujo título é "Voto da Direita" (você pode ler aqui). Maia faz referência a uma frase de Lula, segundo o qual "esta será a primeira eleição em que a direita não terá candidato". Então Maia pergunta: quem são os eleitores da direita? que eles representam?É verdade, como ele aponta, que pesquisas e, acrescento eu, trabalhos acadêmicos tem diversas "fórmulas" para traçar o perfil ideológico dos eleitores. Pode-se, por exemplo, atribuir o valor 1 à posição mais à esquerda possível e 10 à posição mais à direita e pedir que o eleitor atribua um valor ao seu "posicionamento" ideológico. Tem-se assim um continuum: esquerda, centro e direita. Outra alternativa é combinar isso com temas de política pública, geralmente associados à esquerda ou à direita. Assim, maiores gastos do Estado com bem-estar social são atribuídos a uma "política de esquerda" e uma menor interferência na economia é coisa de uma "política de direita". O mesmo ocorre com aspectos culturais ou quando valores estão em jogo: casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto e por aí vai. Maia então conclui citando duas pesquisas, uma na França e outra no Brasil, que constataram que em questões econômicas o eleitor é de esquerda, quer uma maior intervenção do Estado, mas em relação a valores, ele é de direita.
Um livro, verdadeiro clássico da "ciência" política, ajuda a entender bem isso. Escrito em 1957, Uma Teoria Econômica da Democracia, de Anthony Downs, é a base teórica dessas pesquisas e mostra como a dicotomia direita/esquerda funciona na democracia. Imagine que os eleitores se posicionem num espectro entre esquerda (L) e direita (R). O ponto médio (M) representa o eleitor que está exatamente no centro.
Em um sistema bipartidário ou quando a política se orienta pela ação de dois partidos apenas, a tendência é que as políticas de um e de outro lado convirjam para o meio. Isso ocorre porque quem conseguir atender as demandas do eleitor médio tem a vantagem de atrair eleitores da esquerda (A) e da direita (B).Longe de mim querer refutar Downs aqui. Mas as coisas são mais complicadas e o modelo, que quer ser "apenas descritivo", esconde algo fundamental na política. As preferências não são dadas, elas são constituídas durante o próprio jogo político. Alguém que "se posiciona" no espectro como alguém de direita (contra o aborto, por exemplo) pode acabar mudando de ideia durante o embate político com aqueles que são a favor. Ou, para dar outro exemplo, alguém que seja contra a interferência do Estado na economia, pode mudar de ideia diante de uma crise e da perspectiva de um governo que se propõe corrigir problemas sistêmicos da economia através da ação estatal.
Meu ponto aqui é apenas dizer que a distinção direita/esquerda não é inútil nem pode se resumir a posições em um espectro sobre este ou aquele tema polêmico. Acho que podemos pensar em partidos de direita ou de esquerda se levarmos em conta a abertura que cada um deles dá a reivindicações da sociedade civil. Explico.
Quanto mais um partido representa as reivindicações dos movimentos sociais, mais de esquerda ele é. Alguns amigos que estudam política até acham que não faz muito sentido falar em direita ou esquerda, mas ainda estou para ver um deputado do Democratas ser eleito para representar um grupo de sem-teto. Claro que para a definição de esquerda e direita que busco aqui a noção de movimento social é central (e a sociologia já produziu muita coisa a respeito desse tema). Em termos gerais, um movimento social é constituído em torno de alguma identidade (de raça, de classe, de gênero etc.) e suas reivindicações tem, digamos, um certo caráter estrutural. Uma teórica aqui da New School de que gosto muito, Nancy Fraser, costuma alinhar essas pretensões em três eixos: redistribuição, reconhecimento e representação (um texto legal dela em português pode ser lido aqui).
Pensar em como os atores políticos se posicionam em relação às demandas sociais é algo muito importante para se compreender a política. Sem dúvida, a capacidade de políticos em conseguir aglutinar essas demandas varia para mais (como Marina Silva em relação ao meio ambiente, por exemplo), menos ou zero (como políticos que representam grupos de interesse ou buscam apenas preservar o status quo). E isso baliza qualquer disputa política. Pode-se até fingir que direita e esquerda não existem, como se pode também achar que Thatcher e Che são a mesma coisa. Mas isso não passa de ilusão de ótica.


Raphael,
Belo post. Tendo a concordar com praticamente tudo nele: Penso que desde o momento que permancemos nos organizando coletivamente da forma que decorreu diretamente das Revoluções Burguesas, isto é, como um Sociedade Civil, creio que não há como desconsiderar essa classificação que remonta à Revolução Francesa.
Considero, no entanto, que não há como fugir de uma constatação que passou desabercebida ao longo do século 20º: Do mesmo modo que existe um esquerda 'libertária', existe um esquerda 'autoritária' - e o mesmo se aplica para direita mais ou menos como aqueles planos cartesianos do Political Compass.
Quanto ao texto do Maia, ele é um pouco falacioso - como já era de se esperar -, mas levanta algumas bolas que fazem sentido; uma delas é como a cena política nacional, extremamente personalizada, hoje gravita em torno de nomes que foram/são da esquerda.
Estamos falando de nomes oriundos dos mais variados movimentos sociais - estudantil, sindical etc - que cresceram na política nacional quase sempre no combate à ditadura; foram ocupando posições cada vez mais altas ao passo em que o discurso tradicional da direita se perdeu com a Ditadura e encontrou seu fim com Collor.
No entanto, as coisas começaram a tomar contornos estranhos com a guinada do PT para perto do centro, o que gerou um efeito curioso; a maior agremiação de esquerda do país caminhou em direção da direita - tornando-se um partido de centro-esquerda - enquanto o eleitorado caminhou para a esquerda - deixando de ser direitista para figurar num plano centrista.
Isso criou um clima meio de inconsistente na política nacional; o debate se tornou plasmoso e covarde, uma lenga-lenga onde todo mundo tenta se fingir de morto.
Seria José Serra um homem de esquerda ou de direita? Acho que nem ele saberia dizer. O fato é que sua candidatura é de centro-direita por conta dos interesses que gravitam em torno dela. Aliás, quando ele disse que está à esquerda de Lula, ele pode não estar mentindo, afinal, nosso querido presidente é um social-democrata cristão - ainda que mais progressista do que seus pares -, o que pouco importa, na medida em que seu governo é de centro-esquerda.
O único critério razoavelmente justo que eu consigo conceber para definir qual será a de cada candidatura para o ano que vem é uma que parte dos interesses que giram em torno dela, não de seus cabeças, todos esquerdistas de origem e cujo posicionamento político hoje é quase sempre indeterminado.
Atualmente, para entender a política nacional razoavelmente bem, é preciso investigar as controvérsias que aconteceram nas entranhas da esquerda nos últimos anos.
abraços
Rapha não tenho acompanhado a politica internacional como em outros tempos,mas para mim não existe realmente sentido falar em direita e esquerda. Hoje no Brasil, quando vc assiste um discurso inflamado de alguém do DEM ou do PSDB, se estiver distraido ,com certeza pensará que o cara é de direita mas aí ... lógico excluindo os membros da bancada ruralista!
Raphael,
Só uma observação quanto ao penúltimo parágrafo, é "Democratas" e não "Partido dos Democráticos". Sim, eu sei é um nome tosco para uma agremiação política, mas não foi eu que criei - aliás, bem longe disso, se é que você me entende ;-)
P.S.: Não precisa publicar isso.
Oi Rapha.
Beleza de post, bem estruturado e conciso.
Apenas uma observação: como você mesmo reconhece é preciso aceitar a definição de movimento social apresentada, que se limita àquelas agremiações organizadas para atuar politicamente.
Pra não alongar muito a conversa, creio que no brasil qualquer definição ou conceito tanto de movimento social quanto de esquerda/direita se mostra insuficiente diante da realidade.
Um exemplo: os tucanos queriam privatizar as teles, mas tinham dúvidas quanto à aprovação no congresso e temiam a gritaria corporativista disfarçada de nacionalismo do pt e seus apêncices.
Pois bem, o pfl, acm e bornhausen à frente, bancou a aposta e viabilizou a empreitada, que foi responsável pelo atendimento de uma das maiores demandas sociais da época, a universalização das comunicações e a livre concorrência nesse mercado.
De quebra, possibilitou o surgimento de dois importantes movimentos sociais não-organizados.
O maior de todos (+ de 100 milhões de brasileiros): o dos com-celular, e um dos mais importantes e politicamente influentes: o do pensamento internético brasileiro.
No que dependesse dos partidos e movimentos de "esquerda", ainda teríamos filas para conseguir uma mísera linha telefônica, que, todos se lembram, custava o mesmo que um carro usado e era declarada como bem no IR.
Bom texto. Atendendo a seu pedido, postei sobre câmbio no meu blog. Abs