
Há poucos dias li em um blog o caso da estudante da Uniban que, ao vestir uma minissaia, teve de ser escoltada pela polícia para poder sair da universidade. Nos vídeos que circulam pela internet pode-se ver e ouvir os demais alunos gritando enfurecidamente "puta, puta!" Há quem compare isso a um moralismo quase medieval e se limite a repetir que vivemos em uma sociedade retrógrada. Porém o que ocorreu está longe de ser algo "medieval". É, na verdade, reflexo de um tipo de controle que só se tornou possível no mundo moderno.
Hoje a ideia segundo a qual cada indivíduo pode dispor de seu próprio corpo do modo que bem entender é praticamente senso comum. Não por acaso as manifestações em favor da estudante usam esse tipo de argumento em sua defesa. Ora, ela tem o direito de se vestir da maneira que bem entender e deixar partes do seu corpo à mostra livremente. Mas a reação provocada pela minissaia mostra exatamente o contrário: ela violou alguma "expectativa" que se tinha dela. Qual seria essa "expectativa"? Que viram os demais alunos além de uma mulher em uma minissaia?
Para se entender o que aconteceu é preciso apontar para um aspecto fundamental: a exibição de um corpo feminino em uma universidade. A expectativa, ou melhor, a regra que a estudante violou foi a de que não é aceitável que mulheres ocupem lugares onde homens reproduzem suas posições de poder. No trabalho, na política ou, neste caso, na universidade, não é permitida a "presença" feminina. É evidente que as mulheres ocupam mais posições de prestígio hoje do que em qualquer outra época. Todavia, elas só podem fazê-lo à medida que abandonam quaisquer traços do que é considerado "feminino". Uma mulher que almeja ser diretora de uma empresa, por exemplo, não pode "fraquejar", não pode chorar, não pode ser sentimental demais, enfim, tem de deixar de lado essas "coisas de mulher". É claro que os atributos da "feminilidade" são mais uma construção do que algo natural. Por esse motivo alguém do sexo masculino também não pode demonstrar esses atributos publicamente. Ainda que homens sintam-se tanto ou mais fragilizados que mulheres é preciso reprimir qualquer manifestação desse tipo.
E não há nada mais "feminino" do que o próprio corpo da mulher. Ele é o "culpado" por excitar os homens, por fazê-los perder a razão. Ou seja, a construção que coloca toda essa insinuação no corpo da mulher inverte a lógica: não são os homens que deveriam se controlar, mas sim a mulher, porque ela está fora de lugar. Portanto, para que se aceite uma mulher na universidade ela não pode mostrar o corpo. O corpo de uma mulher em uma universidade não pode ser o de uma estudante que pensa. É tão somente o de uma mulher promíscua, uma prostituta. O recado do alunos foi claro: o local onde é permitido a uma mulher exibir seu corpo livremente é a zona, não a universidade.
Um texto de um amigo também sobre o caso me fez refletir um pouco no paralelo entre aquilo que os demais estudantes viram e o que a população branca racista vê no corpo negro. Judith Butler tem uma análise primorosa (que pode ser lida parcialmente em inglês aqui) sobre o caso Rodney King e que nos ajuda a pensar o modo como vemos o corpo. Butler lembra que as imagens de King sendo espancado brutalmente pela polícia de Los Angeles foram usadas pela própria defesa dos policiais no tribunal. Segundo os advogados, os policiais corriam perigo e King era uma ameaça. Não é só um exagero e uma estratégia jurídica. De fato, muitos brancos veem na simples presença de um corpo negro algo perigoso. "Ver", ela diz, "não é apenas um ato de percepção direta, mas a produção racial do visível, o trabalho de coerções raciais sobre aquilo que significa 'ver'". O campo visual não é neutro em relação à raça, como também não é em relação ao gênero. Para Butler, ele é constituído segundo um esquema de poder. Acredito que seja isso que explique o ódios dos estudantes. Ao ver um corpo feminino na universidade, tanto homens quanto mulheres (porque essa lógica está introjetada em ambos) tomaram esse fato como algo estranho ao ambiente acadêmico que é, em termos culturais, predominantemente masculino.
A noção dos espaços nos quais esse corpo feminino pode ou não aparecer varia. Sem dúvida o nome que primeiro vem à mente é o de Leila Diniz e a atitude, ousada para época, de se exibir grávida na praia. Hoje isso não choca porque o corpo da mulher conquistou aquele espaço. Ao contrário de Butler, acredito que seja possível uma negociação desde que não se assuma, de saída, que sempre haverá uma relação de poder na esfera pública. O que nos permite criticar e condenar a reação dos estudantes é justamente pressupor que é possível criar espaços comuns onde corpos estejam presentes, mas não se submetam a construções binárias de poder em termos de gênero ou raça.
(A foto é de um calendário vendido pela universidade de Oxford chamado "Oxford Undressed", que mostra estudantes nus em suas atividades acadêmicas cotidianas.)


É, esses mecanismos de produção social da diferença estão sempre aí, mas podem virar coisa sinistra quando misturados com os temperos errados: intolerância, ausência da ideia de diversidade, privacidade, intimidade e etc. Acho que é bem típico de um perfil social autoritário, meio avesso à ideia de largar mão de se meter na vida dos outros só porque você não gosta do jeito que ela é.
Meu síndico se saiu com uma dessas outro dia, não conto só para não me demorar. Isso aí tá por todo lado em SP. Ironia - o crescimento da classe média no Brasil tem esse efeito regressivo. Vai virando uma imensa base eleitoral de Ademar de Barros, Jânio, Maluf, Kassab. UDN 2.0.
oi rapha, fiquei contente de ver esse esforco de tentar entender um episodio que provavelmente deixou um monte de questoes em aberto na cabeca de quem viu as imagens, seja na internet ou na tv. todo tipo de barbaridade parece emergir quando pessoas perplexas tentam veicular sua perplexidade antes de pensar direito sobre o que dizem. invariavelmente tao moralistas e hipocritas quanto os estudantes da uniban, muitos jornalistas testam diferentes codigos morais pra investigar qual a regra que essa estudante driblou: etica, etiqueta, moda, elegancia? o que foi atacado? o que precisa ser defendido? em episodios assim, como em muitos outros, parece que basta simplesmente dizer alguma coisa indignada e pronto, independente do que se mobilize pra entender ou condenar o que aconteceu. por tudo isso, foi muito bom ver que voce foi direto a um ponto muito importante presente no episodio: o deslocamento entre expectativas e posicoes de genero. e fundamental destacar esse aspecto, porque ele esta la e de modo marcante. mas acho que esse aspecto se destaca muito mais num segundo momento do episodio, no momento do disciplinamento do desvio. sem duvida, todas as possiveis fragilidades da posicao e da presenca femininas sao mobilizadas quando o conjunto dos estudantes e das estudantes procuram agredir verbalmente a colega. mas fiquei me perguntando se nao ha tambem outros fatores envolvidos no episodio, especialmente nos momentos previo, antes da tentativa de disciplinamento, ou seja, no momento da deteccao do desvio, da composicao da instancia disciplinadora que conformou a diferenca entre uma e todo o resto. especialmente se levarmos em conta que nao e o primeiro episodio de agressao indiscriminada naquele campus. nao seria legal levar adiante sua reflexao tentando ponderar tambem se a mesma coisa aconteceria caso fosse uma professora (ou uma funcionaria) e nao uma aluna a usar um vestido daqueles? sera que nao esta em jogo tambem uma expectativa de homogeneidade ou uniformidade que exista entre os colegas estudantes? sera que qualquer outro comportamento desviante nao seria condenado e sentenciado do mesmo jeito (um corpo feminino invisivel, como uma judia ortodoxa ou uma mulher de burqa ou chador, ou um outro corpo nao necessariamente visivel, o de um homem fantasiado, ou um transgenero vestido como qualquer outro estudante)? talvez a dissociacao de momentos diferentes do episodio possa ajudar a perceber melhor o aspecto ritualizado dele, os mecanismos de expiacao envolvidos, uma possivel dimensao sacrificial do individuo desviante e as funcoes de galvanizacao do grupo que a proscricao ou hostilizacao favorecem. enfim, sao so algumas ideias que a leitura do seu texto levantaram. parabens por te-lo escrito e um grande abraco, sebas
Ah, Jay, agora precisa contar a história do síndico! rs... fiquei curioso.
Abraço,
Rapha
Sebas,
Obrigado pelo seu comentário bem redigido e que levanta uma questão importante.
Eu acho que existe sim uma pressão por uma certa homogeneidade: masculina e heterossexual. Talvez um travesti, um aluno gay ou uma aluna lésbica pudessem causar algo semelhante. E tenho quase certeza de que um aluno hétero não causaria uma reação nessas proporções caso resolvesse aparecer com seu corpo mais à mostra.
Isso ocorre porque a questão do feio/bonito, atraente/não-atraente simplesmente não se coloca para os homens na universidade ou no trabalho.
Se fosse uma muçulmana? hum, acho que não geraria tanto problema não. O caso do véu na França, acredito, tem outra origem. Claro, também tem a ver com o corpo na esfera pública, mas o problema é que o véu ameaça a noção que os franceses tem do público (que para eles deve ser sempre laico).
Só para concluir, não acho que a minissaia da moça tenha ameaçado fragmentar o grupo (acho que esse é mais ou menos o seu ponto, se entendi corretamente). A reação histérica e os gritos ocorreram porque o corpo da mulher ameaça a dominação masculina.
Enfim, não estou dizendo que a aluna é uma revolucionária. O fato mostra como, no caso-limite de uma reação exagerada e extrema, ainda estamos muito longe de superar as dicotomias de gênero no Brasil, especialmente em espaços onde o poder é acirradamente disputado.
Forte abraço,
Rapha
Oi Rapha. Na verdade eu já tinha lido o post, mas não tive tempo de escrever um comentário. Eu concordo em parte com você. Posso estar sendo até preconceituosa, mas depois do boom das universidades privadas eu não sei se essa discussão de espaços de poder se aplica da forma como você a colocou. Eu a imagino em centros de excelência, em disputas de egos, em reuniões de departamento, mas não creio ser algo generalizado no ensino superior, principalmente em instituições que não se dedicam à pesquisa e à extensão. No mais, assino embaixo no que você escreveu. Beijocas!
Oi, Maíra.
Eu acho que essa restrição do espaço para as mulheres ocorre em diferentes graus, mas isso inclui as privadas sim. Talvez a competição seja até maior e isso faça com que a exclusão do "feminino" aumente.
Aproveito este comentário para esclarecer algo. Não quero dizer que as mulheres não vão, de fato, mostrar seu corpo ou que os "marmanjos" não vão gostar disso ou se sentir incomodados. Isso acontece sem que haja uma reação igual àquela na Uniban. O que eu quero dizer é que essa exposição do corpo feminino é repreendida e vista como incompatível com a universidade, local de trabalho etc. Como uma mulher que se expõe, por exemplo, e é vista como alguém que quer se valer disso para subir na carreira ou seduzir um professor. Para os homens, essa questão da exposição simplesmente não existe (a não ser que o homem pareça gay). E isso independe de a universidade ser pública ou privada.
Abraço,
Rapha
Entendi. Concordo com você quando diz que tem pressupostos de "roupas" para "ocasiões" e "lugares" e que se uma mulher sai fora do figurino, de fato é mal vista e mal falada. E isso é algo que, se ocorre com o homem, é em uma medida infinitamente menor.
Bueno, fico pensando se essa suposta liberdade feminina de vestir o que quiser, poderia ser realmente chamada assim.
Parece que o empenho em se fazer gostosa é uma espécie pedido: "homem, me aprove com seu olhar." E não que seja só servidão, é desfrute também. É divertido ser vaidosa e se colorir. Mas pode ser sofrível em alguns casos. Vai do quanto se leva a sério esse olhar do outro.
Cara Aline,
Você está certa. É claro que a "liberdade" de se usar o que quiser não é algo absoluto. Ter de se mostrar para parecer bonita e agradar aos homens não é lá uma atitude tão, digamos, "emancipada" assim...
Mas claro que é algum avanço. Fiquei pensando nas mulheres que usam burca, por exemplo. E olha que no meu bairro há várias. Em certas culturas, o controle sobre o corpo feminino é muito mais direto. No Brasil ele é mais sutil, mas existe, sem dúvida.
Não acho que a solução seja colocar estudantes de fio dental na sala de aula. Só apontei para os esquemas de subordinação e poder que estão por trás do modo como o corpo da mulher é visto.
Abraço e obrigado pelo comentário,
Rapha
Não sei se concordo com tudo o que vc disse, Rapha, mas o texto e suas respostas são muito bons. Curioso é que ao menos uma parte das pessoas que gritaram puta (que poderiam estar em qualquer instituição) aprovariam a vestimenta em outros lugares.
Talvez valha a pena aprofundar uma discussão sobre representação: o que somos em nossa vida cotidiana, o que somos "na cama", como canalizamos nossos desejos.
Vou elaborar um pouco mais e te mando.
Beijos!
Maria
Oi, Maria!
Elabore e mande sim! Aponte também para o que não concorda. Obrigado pelo comentário.
Abraço,
Rapha