
Sinal dos tempos. A New York University (NYU), uma das mais ricas e prestigiosas universidades americanas abrirá em 2010 um campus em Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos. A universidade tem um patrimônio de 2,5 bilhões de dólares (pouco, se comparado aos 26 bi de Harvard) e possui centros acadêmicos ao redor do mundo como em Londres, Paris, Florença, Praga, Madri, Berlim, Xangai, Buenos Aires e Tel Aviv.
O programa em Abu Dabi irá conferir títulos de bacharel em artes (B.A.) e em ciência (B.S.), a língua das aulas será o inglês e, dependendo do caso, permitirá ao aluno ter aula em outros países onde a NYU mantem seus centros acadêmicos. É coisa grande, como sugere a página do programa: nyuad.nyu.edu. E é também um caça-níquel: um ano de curso, incluindo mensalidades, seguro-saúde, livros etc., sai US$ 62.454, quase 67% mais cara que a anuidade de US$ 37.470 do College da Universidade Columbia em Nova York.
Como a NYU não é dirigida por gente burra, imagino que haja uma classe rica o suficiente para pagar por isso. A primeira coisa que chama a atenção é que essa classe não é americana. Que americano vai mandar seu filho estudar no oriente médio? Além de receber, como sempre fizeram, alunos estrangeiros, as universidades americanas estão indo oferecer seus serviços no exterior. Essas "multinacionais da educação" tem como grande atrativo conferir um pedigree reconhecido no mundo todo. Explico.
Com a adoção de standards (padrões) americanos por universidades de outros países, como adaptação de currículos, modos de avaliação e critérios de "excelência", é tentadora demais a oferta do carimbo "made in USA" em seu currículo acadêmico ou profissional. Havendo uma classe que possa pagar, seja ela formada por árabes ricos, emergentes chineses ou coreanos, haverá quem queira vender o tal carimbo.
O presidente da NYU (que está mais para CEO de uma grande empresa do que para reitor) é John Sexton. Ele tem um salário anual de US$ 1,3 milhão, está no cargo desde 2002 e deve permanecer até 2016. Em entrevista ao NY Times, disse que "o conceito de universidade global é o conceito para o futuro". Ainda segundo ele, "se nós iremos operar na economia global, então temos de treinar nossos estudantes para ser cidadãos globais".
Deixando de lado esse blá-blá-blá de "cidadão global", a segunda coisa que chama a atenção é que isso pode ser mesmo uma tendência. Com o abalo do poder hegemônico dos Estados Unidos, outros países passarão a ter um papel cada vez mais relevante. E é claro que para se desenvolver um país precisa de cérebros. Mas, quem regula, em nível mundial, os cursos que alguém deve fazer para se tornar um advogado ou engenheiro? Exatamente, ninguém. É mais ou menos natural que empresas, governos e outras organizações se apeguem a um padrão consolidado e que seja símbolo de excelência. Afinal, quem pode contestar um diploma de Harvard?
Estou mais para um "crítico resignado", se é que isso é possível, do que para um árduo defensor do modelo. Gostaria muito de ver esse padrão americano, que reduz tudo a números e a uma excelência incontestável, ruir. Mas, enquanto isso não acontece, sejamos pragmáticos. Como o Brasil pode competir e tirar vantagem disso?
Não é uma pergunta fácil de responder. Arrisco dizer que podemos adotar certas formalidades para que currículos, diplomas e programas sejam reconhecidos tanto lá como aqui. Já registrei anteriormente algumas sugestões que poderiam ser adotadas em nossas universidades, como o depósito de teses em outras línguas que não o português. O Brasil precisa internacionalizar sua academia, caso contrário vai ficar para trás. Quem fez doutorado no exterior sabe como é complicado ou impossível (caso não haja programa semelhante, por exemplo, doutorado em Gender Studies) reconhecer o diploma no Brasil. Se o país se desenvolver mais e ganhar mais espaço no cenário internacional, podemos atrair gente capacitada e, ainda melhor, formar pessoas e fomentar o conhecimento "feito no Brasil".
(Você pode ler mais sobre o novo campus da NYU aqui, de onde a imagem foi retirada)

