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Entrevista com Nancy Fraser

Escrito por Raphael Neves segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 13:02


Em entrevista a Rune Lykkeberg para a página Moderne Tider (tempos modernos) da Dinamarca, a professora da New School for Social Research, filósofa e feminista Nancy Fraser tratou de temas importantes como o novo papel da esquerda, os desafios para se pensar a emancipação social e fez um balanço do primeiro ano do governo Obama.

Fraser, que no Brasil é conhecida pelo debate com o também filósofo Axel Honneth, começa dizendo que há hoje em dia diferentes formas de conflitos sociais. Além de questões de redistribuição, levantadas tradicionalmente pelos movimentos de classe, há conflitos de outra ordem, envolvendo novos movimentos sociais, como o feminismo. Em seus textos, Fraser os caracteriza como movimentos por reconhecimento. Por fim, diz ela na entrevista, o fenômeno conhecido por "globalização" trouxe novos desafios: o de organizar essas reivindicações em diferentes níveis. Hoje não é mais possível ficar apenas no nível local e nacional. Questões envolvendo o meio ambiente, por exemplo, precisam ser tratadas em um nível mais amplo.

Essas novas formas de conflito demandam um novo tipo de crítica, não apenas centrada, como no modelo marxista, em uma contradição específica, ou voltada apenas para um agente emancipador, como a classe trabalhadora. O entrevistador pergunta então se esses novos movimentos sociais, ao contrário, não estariam morrendo. Ela diz que, na prática, os movimentos foram afetados pela "Guerra ao Terror", ou melhor, pela resposta dada pelo governo americano ao 11 de setembro. Isso mostrou como é fácil "fabricar" "inimigos", diz ela.

O desafio passa a ser como a esquerda pode oferecer algo a pessoas que tem medo, que enfrentam insegurança em termos econômicos, sociais e culturais em suas vidas. É preciso articular esses medos e inseguranças de modo a oferecer uma alternativa ao que vem sendo apresentado pela direita.

Fraser diz que a derrota sofrida pelos Democratas em Massachusetts foi surpreendente. Qual a solução contra esse avanço da direita? Ao que parece, diz ela, tudo depende do modo como entendemos "proteção social" contra o mercado desregulado do neoliberalismo hoje em dia: proteção para as pessoas, para o meio ambiente, comunidades e relações sociais. Historicamente os arranjos que protegeram as pessoas do mercado também criaram opressão e hierarquias, como a Igreja, a família patriarcal e o Estado de bem-estar. É preciso imaginar alguma forma de proteção social que não seja conservadora nesse sentido e possa emancipar as pessoas. É preciso ligar emancipação e proteção.

Mas a direita também não fala em emancipação, o entrevistador pergunta. Claro que há a pseudo-emancipação, diz ela. As tea parties, que no passado foram ações contra o colonialismo, hoje não tem nada a ver com emancipação. Como é possível falar em emancipação (de um Estado opressor, dizem os Republicanos) quando as pessoas não tem empregos, renda e sistema de saúde? É preciso criticar essa pseudo-emancipação. A esquerda precisa arriscar-se: deve entrar no debate sobre o que significa proteção social.

Ao falar sobre feminismo, Fraser diz que uma das realizações do movimento foi liberar as pessoas de ideais de gênero, deixando que homens e mulheres decidam ou recusem os papéis que lhe foram definidos. Em relação ao que seria um "feminismo de direita" (ela dá o exemplo do ex-presidente Bush que dizia que iria "liberar" as mulheres afegãs), ela afirma que as feministas não controlam mais o discurso sobre o feminismo. Em tese, ninguém é contra a democracia, assim como ninguém é contra o feminismo, mas esses termos são operados politicamente, não é possível controlar o discurso. [Eu acrescentaria o exemplo, no Brasil, da discussão sobre os direitos humanos. Conservadores, latifundiários e grande mídia se posicionaram contra o PNDH justamente fazendo uso do discurso dos direitos humanos para defender seus próprios interesses.]

Por fim, ao falar sobre o governo Obama, Fraser acredita que ele esteja por um fio. Todo o movimento que apoiou e elegeu o presidente está hoje desmobilizado e desmoralizado. A menos que Obama saiba liderar aquele movimento e reconduzi-lo para a esquerda, ele não conseguirá se eleger e muito em breve perderá a maioria no Legislativo.

Enfim, a entrevista toda dura 37 minutos é uma grande aula de política. Infelizmente, grandes intelectuais de esquerda americanos não tem espaço na mídia. É mais fácil ler e ouvir as entrevistas de Nancy Fraser na Dinamarca ou no Brasil do que aqui nos Estados Unidos. Uma pena.

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    Raphael Neves
    Estudante de πολιτική ("ciência"? política) tentando sobreviver em Nova York com a bolsa da Capes/Fulbright. Flamengo até morrer. PhD als Beruf.
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