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Por Raphael Neves

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Memória e política

Escrito por Raphael Neves terça-feira, 9 de março de 2010 01:26

Nos dias 4, 5 e 6 de março, a New School for Social Research, universidade onde faço meu doutorado, organizou um seminário sobre um tema cada vez mais recorrente por aqui: políticas da memória (politics of memory). Difícil dizer o que são exatamente políticas da memória. Para início de conversa, é uma área de estudo de natureza interdisciplinar. História, filosofia, política, crítica literária, sociologia, antropologia e psicologia entram na roda para debater como nos relacionamos com o passado. Desde questões teóricas como, por exemplo, sobre a noção heideggeriana de ἀλήθεια, de verdade como des-coberta, até questões envolvendo a construção de memoriais (e não apenas museus). Modéstia à parte (porque eu dei uma mão na organização), o evento foi bem maneiro. Misturou figurões do naipe de Andreas Hyussen e alunos de doutorado, coisa cada vez mais rara em eventos no Brasil, acho.

Um trabalho interessante, e que tem tudo a ver com a blogosfera, é o projeto Trauma Tourism. Os caras tem um blog: http://traumatourism.wordpress.com/, que reúne dezenas de pontos turísticos de interesse para os estudos da memória. A ideia do projeto é que as pessoas no mundo inteiro façam comentários sobre memoriais ou lugares onde algum evento traumático (guerra, genocídio etc.) tenha ocorrido. De Auschwitz, passando pelo World Trade Center até excursões do legado dos Panteras Negras, muita coisa aparece por lá. Mais interessante ainda é que você pode baixar um arquivo, abrir no Google Earth e fazer um "tour" virtual por esses lugares. Quando for a São Paulo no final do mês quero visitar o Memorial da Resistência, na antiga sede do DEOPS/SP. Acho que é um lugar que as pessoas deveriam conhecer e poderia muito bem entrar na tal lista do Trauma Tourism. (Se alguém souber de outro, deixe um comentário aí no post.)

Interessante também é encontrar conexões entre memória e arte. O Memory Project é uma exibição com pinturas e testemunho de uma sobrevivente do Gueto de Varsóvia. Outro trabalho legal é o Voices of Rwanda, uma iniciativa de coletar testemunhos dos sobreviventes do genocídio em Ruanda. Por fim, quem for a Washington, capital dos Estados Unidos, deve visitar o Vietnam Veterans Memorial. O memorial é um grande muro de pedra escura com o nome de todos os soldados americanos que morreram na guerra. Sua construção causou muita controvérsia e foi contestada pelos militares, que queriam algo mais tradicional, como a estátua dos três soldados que se encontra próxima ao muro (veja a foto). Ao contrário de "celebrar" a guerra ou o heroísmo dos soldados, o muro é uma lembrança das mortes. Pessoas que perderam alguém buscam por entre os nomes o ente que morreu e, com um giz, levam em papel a marca deixada pelo baixo-relevo.

Em países com uma história marcada por regimes autoritários, chacinas e outras formas de violência, como o nosso, acho fundamental iniciativas que vão além da preservação, como vemos nos nossos (poucos) museus. Testemunhos e memoriais são uma espécie de diálogo que travamos com o passado, não uma mera observação. Quem testemunha quer nos fazer entender um certo fato. "Não transmitir uma experiência é traí-la", como diz o Nobel da Paz e sobrevivente de Auschwitz, Elie Wiesel. Nós, por outro lado, também desempenhamos um papel ativo ao reconhecer o que deve ou não ser lembrado, ao ordenar os acontecimentos e dar-lhes sentido. Mesmo nas mais sangrentas ditaduras, a luta contra a opressão confunde-se com a luta pela própria memória em construção (melhor exemplo é o que foi e representou o Brasil: Nunca Mais). Por esse motivo, um verdadeiro Estado democrático de direito não deve impedir seus cidadãos de compor sua(s) memória(s). Durante e depois da ditadura militar, tudo o que fizemos foi tentar encobrir o passado. Passado este que, apesar de tudo, está muito vivo para ser esquecido.

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    Estudante de πολιτικὴ (“ciência”? política) tentando sobreviver em Nova York com a bolsa da Capes/Fulbright. Flamengo até morrer. PhD als Beruf.